Canetas Emagrecedoras: O Segredo para Manter o Peso ou Apenas uma Ferramenta Temporária?
Por Raquel Lo Turco · Nutricionista Clínica e Esportiva (CRN-8 14929)
5 min de leitura
Atualizado em

As canetas emagrecedoras se tornaram o assunto mais comentado quando o tema é perda de peso rápida. Muitas pessoas relatam resultados impressionantes, enquanto outras têm dúvidas reais sobre segurança, efeitos colaterais e, principalmente, como evitar o reganho de peso após o tratamento. Afinal, como esses medicamentos funcionam? Quem realmente deve usá-los? E o que acontece com o seu corpo quando o uso é interrompido?
O que são e como funcionam no seu corpo
São medicamentos injetáveis que imitam hormônios intestinais ligados à saciedade. No Brasil, três princípios ativos concentram a conversa:
- Semaglutida — Ozempic e Rybelsus (indicados para diabetes tipo 2) e Wegovy (indicado para obesidade)
- Liraglutida — Saxenda e Victoza, de aplicação diária
- Tirzepatida — Mounjaro, que atua em dois hormônios (GLP-1 e GIP) em vez de um
Todos agem no trato gastrointestinal, no pâncreas e no cérebro. Na prática, o que o paciente sente é isto:
- Redução importante da fome
- Saciedade prolongada — o alimento permanece mais tempo no estômago
- Diminuição do food noise, aquele ruído de pensar em comida o tempo inteiro
Esse último ponto é o mais subestimado. Tem paciente que, pela primeira vez na vida, consegue seguir um plano alimentar sem sofrer. Não é pouca coisa. Muitos chegam ao meu consultório em Londrina encantados, acreditando que a caneta fará todo o trabalho sozinha — e aqui começa o problema, porque ela não ensina ninguém a comer.
Para quem é indicado?
As canetas não são produtos para uso indiscriminado. São ferramentas médicas para tratamento de distúrbios metabólicos: obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares. O uso exige avaliação médica do IMC, da composição corporal e do histórico do paciente. Se você quer entender por que esse diagnóstico vai muito além do número na balança, eu detalhei isso em obesidade é doença, não falta de força de vontade.
Cuidado com a origem: o que a ANVISA proibiu
Em meio à corrida pelas canetas, cresceu a oferta de versões manipuladas e de procedência duvidosa — inclusive por marketplaces e redes sociais. A ANVISA proibiu as versões manipuladas de semaglutida, liraglutida e tirzepatida, e a razão é simples: sem controle de fabricação, não há garantia de dose, de esterilidade nem de identidade do princípio ativo.
Não tome medicação de origem desconhecida. E conte ao seu médico que você está usando — principalmente antes de cirurgia ou exame.
Esse segundo ponto tem virado rotina nos centros cirúrgicos: pacientes que escondem o uso da medicação e chegam para procedimento com o estômago ainda cheio, porque o esvaziamento gástrico está mais lento. É um risco anestésico concreto e completamente evitável.
Vale saber também que o cenário de preço mudou: além dos medicamentos de referência, já existem opções nacionais aprovadas, como a semaglutida da Eurofarma (Poviztra e Extensior) e a liraglutida da EMS (Olire e Lirux). Mais acesso é bom — desde que a prescrição continue existindo.
O lado oculto: efeitos colaterais e flacidez
Os efeitos mais comuns incluem constipação, náuseas, desidratação e mudanças de humor. A queda de cabelo também aparece, principalmente quando a perda de peso é muito rápida — é o mesmo fenômeno que se observa após a cirurgia bariátrica, entre o terceiro e o nono mês.
Mas o maior risco é outro: com a fome reduzida, a alimentação fica desequilibrada, e o corpo passa a consumir massa magra. Imagine uma bexiga cheia que é esvaziada de uma vez — a perda é tão rápida que a pele não tem tempo de retrair. Como o músculo é a estrutura que preenche e sustenta o contorno corporal, perder músculo durante o uso da caneta agrava intensamente a flacidez e a perda de força. Você não emagrece só na gordura.

O que a ciência mostra sobre parar de usar
Aqui é onde circula muita informação exagerada, então vamos ao que os estudos de fato mediram. Na extensão do estudo STEP 1, com semaglutida 2,4 mg, os participantes perderam em média 17,3% do peso em 68 semanas. Um ano após a suspensão, haviam recuperado cerca de dois terços do que perderam — terminando com uma redução líquida de 5,6% em relação ao peso inicial.
No estudo SURMOUNT-4, com tirzepatida, quem passou a receber placebo recuperou peso de forma parecida: 82% dessas pessoas recuperaram mais de um quarto do peso que haviam perdido no primeiro ano.
Repare no que esses números dizem e no que não dizem. Não é verdade que “todo mundo recupera tudo”. Mas é verdade que a maioria recupera uma parte grande — e que quem mantém o medicamento mantém melhor o resultado. Nosso metabolismo entende a perda rápida de gordura como ameaça à sobrevivência e luta para recuperar a energia perdida. A fome volta, muitas vezes parecendo mais intensa. E se você perdeu massa muscular no caminho, seu gasto calórico diário despenca: com menos músculo e mais fome, o reganho fica quase inevitável.
É por isso que a leitura correta desses estudos não é “a caneta não funciona”, e sim: a obesidade é uma doença crônica. Assim como a hipertensão, o tratamento controla a condição — não a extingue.
A janela de oportunidade que quase todo mundo desperdiça
O período de uso da caneta é a sua janela de ouro. É o momento de usar a ausência de fome para construir hábitos, aprender a comer e fortalecer músculo — justamente porque, sem fome gritando, fazer isso fica possível. Ficar longos períodos sem comer, aproveitando que “não está com vontade”, é o caminho mais rápido para perder massa magra: o ideal é não passar de cerca de quatro horas entre refeições, mesmo sem fome.
Como nutricionista clínica, meu papel é garantir que você perca gordura enquanto preserva e constrói massa muscular — a que te dá força, disposição e sustenta seu metabolismo. Eu traduzo a nutrição para a sua rotina, sem dietas impossíveis. A caneta ajuda a emagrecer; quem sustenta o resultado depois são os hábitos construídos durante o processo.
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