Obesidade é Doença, Não Falta de Força de Vontade

Por Raquel Lo Turco · Nutricionista Clínica e Esportiva (CRN-8 14929)

4 min de leitura

Obesidade é Doença, Não Falta de Força de Vontade

“É só fechar a boquinha que resolve.” Se você já ouviu isso — de um parente, de um colega, ou da sua própria cabeça às três da manhã — você já entendeu por que este texto existe. No consultório, a parte mais difícil do tratamento da obesidade quase nunca é montar o plano alimentar. É o momento anterior: aceitar que existe uma doença ali, e que ela não é um defeito de caráter.

Por que é tão difícil aceitar

A gente cresce ouvindo que está acima do peso porque come demais, porque come errado, porque come muito doce. Passa a vida inteira escutando isso. Então, quando alguém diz que obesidade é uma doença, a frase não encontra lugar para pousar — porque aceitar isso exige mudar de mentalidade, e mudar de mentalidade mexe com muita coisa emocional.

Repare na diferença de tratamento que a gente dá para duas doenças crônicas. Se eu tenho hipotireoidismo, a conversa é direta: é uma doença, vou tomar medicação, vou acompanhar com o endocrinologista, e ninguém acha isso estranho. Ninguém sugere que eu resolva o hipotireoidismo com disciplina.

Mas obesidade, não. Obesidade é “fecha a boca e vai pra academia, que resolve”.

Comer bem e se movimentar são essenciais — isso não está em discussão. O problema é a palavra . Às vezes não é só isso. Na maioria das vezes não é só isso. Existem fatores hormonais, metabólicos, genéticos e emocionais agindo ao mesmo tempo, e é por isso que a obesidade é classificada como uma doença multifatorial e crônica. É fácil, de fora, dizer “fecha a boca, faz exercício”. A doença é bem mais complexa do que a frase.

O diagnóstico vai além do IMC

Via de regra, IMC acima de 30 — ou acima de 27 com alguma comorbidade associada — já classifica a pessoa como obesa. Mas parar no IMC é ficar com meia informação, e é aqui que muita gente se perde.

No consultório eu olho a composição corporal, não só o número. E existem pessoas que visualmente estão bem, dentro de um peso que ninguém questionaria, mas cuja composição está desregulada: muita massa gorda e pouca massa magra. O contrário também acontece — quem treina há anos pode pesar mais do que a tabela sugere e estar metabolicamente saudável. O peso na balança não distingue gordura de músculo. A avaliação distingue.

Uma doença multifatorial não se trata sozinha

Se a causa vem de várias frentes, não existe um profissional único capaz de dar conta de tudo. Cada um cuida de uma parte:

  • Médico — investiga as condições clínicas, conduz medicação quando é o caso e avalia indicação cirúrgica
  • Nutricionista — trabalha o comportamento alimentar e constrói um planejamento que caiba na sua rotina
  • Psicólogo — cuida das emoções em volta da comida, que quase sempre existem
  • Educador físico — fundamental para a composição corporal e para preservar massa magra

O objetivo desse conjunto não é te deixar dependente de quatro profissionais para sempre. É o contrário: é retirar da sua vida as condições que sustentam a obesidade, para que você consiga manter o resultado — inclusive sem medicação, quando isso for possível.

Quando eu digo que não é só comigo

Acontece com frequência: a pessoa chega buscando emagrecimento, a gente ajusta os hábitos, melhora a alimentação de verdade — e ainda assim a dificuldade permanece. Esse é um sinal clínico, não um fracasso pessoal. Pode ser uma compulsão alimentar que precisa de acompanhamento psiquiátrico, pode ser uma questão metabólica que pede endocrinologista, pode ser algo gastrointestinal. Nessas horas eu encaminho, porque o que a pessoa precisa não está no meu escopo.

E se você está lendo isso sem saber por onde começar, essa dúvida em si já trava muita gente — a ponto de escolher uma terceira via e tentar resolver sozinha, com uma dieta da internet. Uma avaliação médica inicial costuma ser o caminho mais curto: ela mapeia suas condições e indica quem mais precisa entrar. Não existe porta errada, existe porta nenhuma — e essa é a única que não leva a lugar algum.

O que eu queria que você levasse daqui

Não tenha medo de comer e não tenha vergonha de procurar ajuda. Essas duas frases resolvem mais do que qualquer dieta restritiva que você encontre por aí. A obesidade é crônica, o que significa que o tratamento acompanha e controla — assim como acontece com a hipertensão. Isso não é uma má notícia: é o que permite parar de recomeçar do zero a cada janeiro.

E se em algum momento entrar medicação nessa história, vale lembrar do lugar dela: é uma ferramenta dentro de um trabalho maior, não a solução isolada. Eu escrevi sobre isso em detalhe em canetas emagrecedoras: ferramenta ou solução?

Quer um plano que caiba na sua rotina, sem dieta impossível?

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